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Como as histórias são organizadas no banco?

Existem muitos jeitos de classificar histórias. Aqui no Banco de histórias-sementes o nosso objetivo ao categorizar é pra tornar possível a busca das histórias da maneira mais fácil e eficiente e não pra fazer uma análise dos contos. Por isso optamos por não adotar nenhuma das referências canônicas como a de Aarne-Thompson ou a de Vladmir Propp.


Aqui escolhemos basear nossas categorias no livro "O ofício do contador de histórias" da nossa grande mestra Gislayne Matos em parceria com Inno Sorsy. Por serem artistas da palavra oral, elas conhecem as histórias "por dentro" e não se relacionam com elas apenas como objeto de análise e pesquisa. Essas autoras convivem com as histórias, se dedicam a contá-las tornando-as vivas entre as pessoas e isso de contar uma história oralmente é totalmente diferente de ler uma história, por isso também as nossas histórias estão guardadas em áudio e vídeo e não em texto, mas vamos falar mais disso adiante.


É claro que o trabalho de acadêmicos e pesquisadores é muito importante, inclusive, as autoras do nosso livro de referência usam esse material, porém, sempre trazendo a perspectiva de uma prática profissional e pessoal e é isso que nos interessa muito aqui: a prática de contar histórias tradicionais oralmente.


Tenho certeza que com o tempo vamos aprimorar (e muito!) nosso jeito de categorizar as histórias guardadas aqui no nosso banco e, aproveito pra lembrar que toda colaboração é muito bem-vinda. Qualquer ideia, dúvida ou sugestão é só escrever pro oi@sementeira.art ou comentar no espaço dedicado pra isso ao final de cada post.


Dito isso, seguem as categorias e uma breve definição de cada uma (sabendo que cada definição poderia ser aprofundada ao infinito). Aproveito pra reforçar que todas as citações apresentadas estão no livro citado aí em cima "O ofício do contador de histórias".


mitos

"O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do 'princípio'. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma 'criação': ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser."

Mircea Eliade citado por Gislayne Matos e Inno Sorsy em "O ofício do contador de histórias", p. 68


contos maravilhosos (ou de fadas)

"Na 'passagem do mito à razão' por volta do século VI a.c. os mitos foram sendo deixados de lado, 'mas, onde guardar tanta poesia, tanto encantamento, tanta perplexidade, tanto temor e respeito?' (…) Pois é possível que tudo isso tenha sido guardado nos contos maravilhosos. (…) Povoado pelo mágico, pelas metamorfoses, pelos elementos sobrenaturais, pelos personagens bizarros ou fascinantes que se entrelaçam numa estrutura complexa. Seu tema central é sempre a luta entre o bem e o mal como meio para se restabelecer a harmonia perdida.”

p. 74 e 75


fábulas, apólogos e contos de animais

“A característica comum entre esses três gêneros é a lição de moral, recurso pedagógico que não sai de moda. No caso do apólogo, os personagens são objetos. Nos contos de animais, claro, os personagens são os próprios animais, mas com funções bem diferentes das que eles cumprem nos contos maravilhosos. Nestes, os animais não são apenas animais; são aliados dos heróis e têm poderes mágicos ou, em alguns casos, são seres humanos que foram metamorfoseados.

Nos contos de animais, eles conservam sua natureza animal mas comportam-se como seres humanos. O trunfo que tornou esses contos tão populares é que, neles, o animal encarna as fraquezas humanas, criando uma distância para que se possa abordá-las de forma divertida e ao mesmo tempo educativa.

(…) Quanto as fábulas, elas se confundem com os contos de animais no que tange sua estrutura simples e seu caráter educativo, mas seus personagens não são necessariamente os animais. Constituem um gênero tão antigo, que sua origem se perdeu no tempo. Talvez sejam uma evolução dos mitos primitivos que, ao perder seu caráter religioso, passaram ao mágico nos contos maravilhosos para, finalmente, focar seus temas em torno da moral e do cotidiano social.”

p. 82 e 83


lendas, sagas e epopeias

“As lendas têm uma semelhança com os mitos, mas só aparentemente. Como nos mitos a finalidade é explicar a origem de algo. Mas os mitos tratam de uma explicação cosmogônica do universo que diz respeito a toda a humanidade e são transmitidos por meio de rituais religiosos. O que as lendas explicam são os acontecimentos ditos como verídicos, ocorridos num determinado tempo e geograficamente localizados. (…) As lendas podem explicar o aparecimento de uma fonte, de uma ponte ou de uma colina. Pode referir-se a seres sobrenaturais como as fadas, o Caipora e o Saci-Pererê, mas seus personagens não têm a mesma função dos deuses míticos.”

p. 86


“A epopeia e a saga também podem ser consideradas lendas. Da linguagem oral passaram à escrita como grandes poemas - os poemas épicos. É o caso da Ilíada e da Odisséia, cantadas na Grécia pelos aedos. (…) A epopeia e a saga situam-se entre a história e o mito. Contam a história de um indivíduo que, por suas qualidades especiais, muitas vezes recebidas diretamente dos deuses, transformou sua sociedade, guiou seu povo para terras férteis ou libertou-o de um tirano, fundou reinos, países, cidades.”

p.97


contos acumulativos

“O que caracteriza os contos acumulativos é a dinâmica de encadeamento das ações, que se articulam segundo a lógica de um mundo fechado numa organização cíclica e imutável. Eles constituem bom exercício de lógica, de ritmo e de memorização para crianças pequenas.”

p. 98


contos de assombração

“À condição, evidente, de não se misturarem os mundos, de não se fazer acreditar que o Lobo que devora a Chapeuzinho Vermelho ou o que engole os cabritinhos possam irromper na vida cotidiana e tornar-se auxiliar da autoridade adulta, o conto de ‘fazer medo’ é de uma grande higiene psicológica. Ele cumpre para a criança a mesma função catártica do filme fantástico para o adulto: nomeia, expõe os medos, coloca distância, faz expurgar… […] Não são as feiticeiras, nem os ogros, nem os lobos que fazem nascer o medo, mas os conflitos, as tensões vividas na vida cotidiana; a feiticeira, o lobo, o ogro dão forma a esse medo, e assim o exorcizam.”

Loiseau citado por GisGislayne Matos e Inno Sorsy em "O ofício do contador de histórias", p. 102


contos de demônio logrado

“Sempre que os homens mudam de ideia, o Demônio muda de cara e até de nome. Sair de cena é que não sai.”

p. 104


“Nos contos populares brasileiros, portugueses, espanhóis, africanos, árabes, rara ou impossível é uma vitória do Demônio. Aceitando desafios, topando aposta ou firmando contrato, o Diabo é um logrado inevitável…”

Câmara Cascudo citado por Gislayne Matos e Inno Sorsy em "O ofício do contador de histórias", p. 105


Mas, as autoras trazem um contraponto interessante do professor Altimar Pimentel. Ele diz:


“Depreende-se, pela destreza com que o Diabo atende à convocação voluntária ou involuntária, ou mesmo apresenta-se solícito sem ser chamado, que há um relacionamento entre ele e os seres humanos de acordo com a visão dos narradores populares. Tanto é assim que, das vinte e oito histórias, aqui incluídas, em quinze o diabo estabelece pacto com o personagem que o convoca para este fim ou com quem ele próprio escolhe, com surpreendente naturalidade por parte dos pactários. E em apenas sete o Demônio é logrado. […] Com relação a este aspecto - o logro imposto ao Demônio -, em somente um conto o homem revela-se astucioso o suficiente para vencer o seu antagonista. Nos demais, é a astúcia feminina que prevalece.”

Altimar Pimentel citado por Gislayne Matos e Inno Sorsy em "O ofício do contador de histórias", p. 106


contos da morte

“A morte pode até tardar, mas faltar, nunca. Como o demônio, ela também mudou de cara ao longo dos tempos.

Ser recebida como uma visitante querida e esperada, na verdade, nunca foi. Mas era tratada com maior respeito e maior solenidade, até mesmo com reverência. Pelos segredos que guarda, sempre suscitou certo fascínio entre nos homens. E também certo horror, pelo vazio que deixa em seu rastro. […] Os contos da morte são um manancial de sabedoria prática. Ensinando a lidar com a morte, o que realmente eles fazer é nos ensinar a viver melhor, e essa é sua finalidade.”

p. 112-113


contos humorísticos, facécias, anedotas e piadas

“Com exceção da anedota, que pode também ser considerada uma narrativa curta de um fato real e individual não necessariamente engraçado, os demais gêneros relacionados no título têm em comum o riso como finalidade última. O protagonista em geral é um desadaptado - um bêbado, um simplório, um avarento ou um sábio que se faz passar por idiota”. […] Sua caraterística é a imprevisibilidade do desfecho, com atitudes inesperadas dos personagens. Constituindo uma sátira anônima, esses gêneros revelam o espírito coletivo. O que eles têm de muito valioso é que nos encorajam a tomar distância da realidade para rirmos dela, e assim aprendermos a rir de nós mesmos. Nada é mais saudável que aprender a rir das próprias limitações. isso ajuda a ressignificá-las e nos coloca diante dos imprevistos possíveis que podem mudar tudo de repente.”

p. 120, 121


causos

“Os causos são como a cantoria de um povo, que afina e desafina. Eles mostram as grandezas, as sabedorias, as bizarrices, as ingenuidades, as graças e as desgraças, enfim, tudo isso que de metafísico nada tem, é o dia-a-dia acontecendo e as pessoas acontecendo nele. […] Os causos são como utilidades que se guardam numa gaveta para o caso de uma precisão. Eles refletem o que há de mais terreno da experiência do povo de uma comunidade. Relevante nos causo é esse poder que eles têm de nos fazer sentir cúmplices, partícipes da vida de um grupo. Frutos de uma mesma árvore, como numa família. Eles ajudam na construção de nossa identidade regional. E mesmo se quisermos em algum momento de nossa vida jogar tudo para o alto, será nos apoiando nessa identidade coletiva que poderemos tomar impulso para voa em busca de outras referências.”

p. 124 e 125


“A distinção entre o conto popular e o causo está em que neste o narrador participa da narrativa como personagem ou testemunha preocupado em dar-lhe cunho de verdade, por mais fantástica e inacreditável que pareça. No conto tudo é ficção. Os personagens quase sempre não possuem nomes próprios - são o rapaz, a mãe, o pai, o irmão […] os causos preocupam-se com a realidade objetiva, factual, imediata.”

Altimar Pimentel citado por Gislayne Matos e Inno Sorsy em "O ofício do contador de histórias", p. 125


 

Além das categorias, também usamos as TAGS que facilitam muito o processo de busca das histórias aqui no banco. Listamos aqui os critérios que usamos para criar as TAGS e alguns exemplos, com o objetivo de te ajudar as pensar nas palavras na hora que você quiser encontrar uma história-semente.

  • personagens: princesa, rei, fada madrinha, serpente, cavalo, bobo, sábio…

  • objetos: espada, garrafa, tesouro, sapato…

  • lugares: fundo do mar, caverna, céu, inferno, montanhas, vila, casa, rio…

  • origem: indígena sul-americana, áfrica ocidental, budista, judaica, Irlanda, Brasil…

  • simples acontecimentos: criança perdida, tesouro escondido, gênio na garrafa, uma longa viagem...


Espero que este post ajude vocês. Por enquanto, estamos começando então a coisa é bem mais simples. Estamos cuidando da semente desde o começo pra que quando ela for uma árvore frondosa, a gente vai poder sentar na sua sombra e aproveitar. Metáforas a parte, bem-vindes ao nosso Banco de Histórias-sementes.

 

referências:


O ofício do contador de histórias

Gislayne Matos e Inno Sorsy

Editora Martins Fontes

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